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Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas

DAS ORIGENS À REFUNDAÇÃO: QUASE UM SÉCULO DE ORGANIZAÇÃO COLETIVA

Placa da Associação - Fonte: Instagram @bahiaeminasteofilootoni

A história da Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas (ACFBM) começa muito antes de seu nome atual. Em 21 de setembro de 1930, foi fundada a Associação Beneficente dos Ferroviários da Bahia e Minas, na Rua Engenheiro Argolo, 641, em Teófilo Otoni. Ela nasceu de uma necessidade concreta: os trabalhadores da EFBM, especialmente os admitidos como “provisórios”, enfrentavam salários atrasados — às vezes por até quatro meses — sem nenhuma garantia trabalhista.

A associação funcionava em conjunto com uma cooperativa própria, que fornecia desde gêneros básicos até tecido para roupas — o que explica por que, segundo relatos da comunidade, os filhos dos ferroviários vestiam praticamente o mesmo padrão de roupa, comprado no mesmo lugar. A estrutura de apoio ia além: a associação mantinha até atendimento odontológico próprio para os trabalhadores e suas famílias.

Paralelamente, existia ainda a União Operária Beneficente, voltada especificamente ao amparo de viúvas de ferroviários, que recebiam ajuda mensal da entidade — um dos poucos mecanismos de proteção social disponíveis à época, décadas antes de qualquer legislação previdenciária consistente cobrir essa categoria de trabalhadores.

 

UMA REIVINDICAÇÃO TARDIA E NECESSÁRIA

Evento de lançamento do livro: Pretas e Pretos Bahiaminas - Fotografia: Valmer

Com a extinção da EFBM, em 1966, e a dispersão de boa parte da comunidade ferroviária para outras cidades, essa estrutura de organização coletiva praticamente desapareceu. Foi só em 1999 que a tradição foi retomada sob um novo nome e um novo propósito: a Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas, com sede na Rua Júlio Costa, próxima ao Pontilhão e à antiga estação — um imóvel cedido pelo município, reformado no início dos anos 2000.

Hoje, a diretoria da ACFBM é majoritariamente composta por mulheres negras, muitas delas filhas ou netas de imigrantes vindos de Helvécia, no sul da Bahia. Sob essa liderança, o resgate da musicalidade ferroviária ganhou centralidade nas atividades da entidade: em 20 de novembro de 2022, foi criado o Coral Vozes da Bahia e Minas, dedicado a manter viva a tradição musical transmitida desde Helvécia até a Margem da Linha.

 

O ACERVO EM RISCO

Frente da Associação - Fonte: Google Imagens

Apesar da reforma do início dos anos 2000, a sede da ACFBM enfrenta hoje problemas estruturais sérios — infiltrações no telhado ameaçam o pequeno acervo que restou: documentos, fotografias, objetos do cotidiano ferroviário. Estima-se que mais de 70% desse acervo já tenha se perdido ao longo das décadas, entre furtos, deterioração e falta de recursos para conservação.

A manutenção do espaço, muitas vezes, depende do esforço pessoal — e do próprio bolso — de quem hoje cuida dele:

“Nós fomos comprar a tinta, uns 3 mil e tantos, sem um centavo — compramos tudo fiado. E agora é pagar esse dinheiro. Mas eu confio em Deus que eu vou conseguir.” — Moradora da Margem da Linha

POR QUE ISSO IMPORTA HOJE

Membras da Associação - Fonte: @bahiaeminasteofilootoni

Apesar das dificuldades, moradores da comunidade reconhecem que a existência da associação — e, mais recentemente, o próprio esforço de pesquisa e registro da memória oral — já fez diferença concreta contra décadas de silêncio institucional:

“Eu acho que depois da criação da associação, aquela casa avivou um pouco mais — tava bem no ostracismo. Esse trabalho que vocês estão fazendo é incrível, vai ajudar a não deixar morrer, a avivar a memória disso tudo.” — Moradora da Margem da Linha 

A Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas é, hoje, muito mais do que uma sede física: é o principal ponto de resistência ao apagamento da história ferroviária negra de Teófilo Otoni, e o espaço onde essa memória ainda pode ser tocada, vista e ouvida. O que resta desse acervo — e o estado em que se encontra — é o tema da próxima página, dedicada ao Museu da Associação.

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