Museu Virtual do Vale do Mucuri
O Quilombo Margem da Linha
Memória, território e resistência na Margem da Linha
ORIGEM
A Margem da Linha nasceu à sombra dos trilhos. Em 3 de maio de 1898, a Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM) chegou a Teófilo Otoni e mudou o desenho da cidade. Um novo núcleo habitacional surgiu ao redor da ferrovia, formado majoritariamente por trabalhadores negros vindos do sul da Bahia — Helvécia, Juerana, Paraju, Caravelas —, regiões onde a presença quilombola já era marcante antes mesmo dessa migração.
“Os ferroviários, por… assim… construção era muito de pessoas de raça negra, a grande maioria. Helvécia, Juerana, Paraju, Caravelas… muitos negros e quilombolas, e eles vieram para cá.” — Morador da Margem da Linha
Algumas dessas famílias chegaram por caminhos duros. A avó paterna de um dos moradores foi abandonada pelo marido no interior da Bahia e veio a pé — depois de carona em caminhão pau de arara — até Araçuaí, trabalhando como doméstica enquanto os filhos pequenos serviam em fazendas da região. Foi a notícia da construção da ferrovia que despertou nessa família a vontade de migrar para Teófilo Otoni.
O que começou como ocupação rural ganhou, com o tempo, contorno urbano — sempre marcado pela presença afrodescendente. Em 2023, a Fundação Cultural Palmares certificou a região como Remanescente Quilombola Margem da Linha, o único quilombo ferroviário do Brasil. E o reconhecimento já entrou no vocabulário dos próprios moradores:
“É muito gratificante, sabe? Você fazer parte dali que agora é quilombo. Quilombo Urbano. Saiu muita gente de lá, outros morreram, os filhos casaram, foram pra outros lugares da cidade. Mas ainda tem muita gente ali que viveu, que conta a história.” — Moradora da Margem da Linha
A ESTAÇÃO E O MUNDO DO TRABALHO FERROVIÁRIO
A estação de Teófilo Otoni foi inaugurada em madeira e depois reconstruída em estilo neoclássico-gótico. Rapidamente se tornou a de maior movimento em todo o trecho da EFBM. Ao redor dela funcionava um complexo técnico: galpões de manutenção de locomotivas, o Hospital Ferroviário Balbina Bragança, a Caixa d’Água, e as Turmas de Conserva, que cuidavam da via.
O trabalho passava de pai para filho, cada um numa função: caldeireiro, truqueiro, pintor, pedreiro, telegrafista, vigilante.
“O irmão mais velho trabalhava como truqueiro. Truqueiro é que, quando descarrilhava o trem e tombava, ele era responsável por trazer pra linha outra vez. E não tinha guindaste! Às vezes a máquina ficava metros e metros dentro do buraco. Era coisa demorada.” — Morador da Margem da Linha
O risco era parte do cotidiano — para quem trabalhava e para quem morava perto da linha:
“Teve um dia que o pai de uma amiga perdeu o braço trabalhando.” — Moradora da Margem da Linha
“O trem passava e tinha casas dos dois lados, crianças brincando. A gente sabia a hora que ia passar, os pais gritavam: ‘Não vai pra linha não, que o trem vai passar!'” — Morador da Margem da Linha
Salários atrasados por até quatro meses eram comuns entre os trabalhadores “provisórios”, sem nenhum direito assegurado. Foi essa precariedade que levou à criação da Associação Beneficente dos Ferroviários da Bahia e Minas, em 1930.
UM TERRITÓRIO NEGRO, UMA IDENTIDADE FORJADA NA UNIÃO
A Margem da Linha não era só um lugar de convívio. Era também resposta a uma segregação bem concreta em Teófilo Otoni. O Automóvel Clube, frequentado pela elite da cidade, mantinha seus salões praticamente fechados à população negra. Os ferroviários se reuniam em espaços próprios, como o Clube 7 de Setembro.
“Tínhamos aqui um médico, ginecologista, muito famoso — ele chegou a ser discriminado também. O 7 de Setembro era um clube social mais liberal, e o Automóvel Clube, muito elitizado. Os ferroviários, por construção, era muito de pessoas de raça negra, a grande maioria. A discriminação tinha na época, sim.” — Morador da Margem da Linha
A resposta a isso era a união. Casas construídas lado a lado, vigilância coletiva, portas sempre abertas:
“Como as casas eram todas juntinhas, qualquer movimento estranho despertava, e vinha todo mundo acudir. Era muita união.” — Moradora da Margem da Linha
Para uma das moradoras mais antigas, essa mesma união é parte do motivo do fim da ferrovia, em 1966 — e do silêncio que veio depois:
“Teófilo Otoni não tem memória, é uma cidade sem cultura. Eu falo na cara de qualquer um: preto aqui não vale nada.” — Moradora da Margem da Linha
Até o nome da cidade carrega essa tensão. Teófilo Benedito Otoni, seu homenageado, foi proprietário de pessoas escravizadas — fato que incomoda moradores até hoje:
“Pra que Teófilo Otoni? Teófilo Benedito Otoni era escravocrata. Por que não Júlio Costa?” — relato citado por moradora da Margem da Linha
FÉ E RESISTÊNCIA: OS TERREIROS DA MARGEM DA LINHA
O bairro Palmeiras chegou a ser chamado, na cidade, de “bairro macumbeiro” — de tantos terreiros que abrigava. Os mais lembrados: o de Totó, o de Dona Santa (sua matriarca, hoje sucedida pela filha Dora) e o de Dona Ana.
“Tinha muitos terreiros. Meu pai vendia velas, o pessoal subia pra lá. Era uma família: Totó, que era o chefão, pessoa boa, boníssimo. E Dona Santa, que era a matriarca deles. Hoje continua com o centro de Dora, filha de Dona Santa.” — Moradora da Margem da Linha
Catolicismo e religiões de matriz africana conviviam sem conflito — e sem esconderijo, apesar do tambor sempre presente:
“Era sábado, e era tambor mesmo batendo. Ninguém reclamava, ninguém chamava polícia. Misturava muito: ia pra macumba, ia pra igreja católica. Macumbeiro falava ‘eu sou católico’, com muita tranquilidade.” — Moradora da Margem da Linha
“Não tinha preconceito com relação a isso, não tinha.” — Moradora da Margem da Linha
Mesmo crianças cresciam soltas nesse ambiente, brincando de reproduzir o que viam:
“A gente ficava brincando de pegar macumba. Ia pra dentro do quarto, apagava as luzes, danava a cantar. Que vergonha! Não era só nós lá em casa — em todo canto as crianças gostavam de brincar assim.” — Moradora da Margem da Linha
LUGARES QUE GUARDAM MEMÓRIA
O Morro do Feijão Bebido — hoje bairro Frei Dimas — tem nome de origem controversa: a lama que escorria pela encosta em dias de chuva, quando faltava água encanada. Uma cantiga, lembrada em versões um pouco diferentes de casa em casa, virou símbolo do lugar:
“Quem mora no Feijão Bebido
Não tem batucada
Tem macumba e a coisa é animada
O clima é bom e os caras são sabidos
Morar no morro do Feijão Bebido
[…]”
— Cantiga popular
Nas proximidades do Ponto de Parada Aliança, a memória oral também guarda a localização de um cemitério de pessoas escravizadas — sem registro oficial, mas presente na lembrança de mais de uma geração.
O CLUBE DENDÊ, O CARNAVAL E A VIDA SOCIAL DOS BAHIMINAS
Nenhum espaço concentra tanta memória afetiva quanto o Clube Dendê — também chamado Clube das Palmeiras — e o carnaval que ali acontecia. Para os moradores, foi justamente o carnaval que a extinção da ferrovia levou embora da cidade:
“O carnaval foi a principal herança que a gente tinha e perdeu com a extinção da Bahia-Minas. Hoje não tem carnaval mais em Teófilo Otoni de jeito nenhum.” — Morador da Margem da Linha
Os preparativos começavam meses antes:
“Começávamos três meses antes, pegando pena de galinha com todo mundo que matasse galinha, pra colar no saco de estopa e fazer as roupas. Saía o Bloco dos Índios — muita gente.” — Moradora da Margem da Linha
Os carros alegóricos, construídos pelos próprios moradores baianos, eram motivo de orgulho:
“Os baianos construíam os carros muito bem feitos. Eu lembro dela desfilando nos carros alegóricos — giratório, coisa bonita.” — Morador da Margem da Linha
Quadrilhas juninas, Folia de Reis e Pastorinhas completavam o calendário — sempre com crianças e adultos misturados, até altas horas da noite.
UMA HISTÓRIA TAMBÉM DE APAGAMENTO
O fechamento da EFBM, em 1966, não teve nota em jornal nem registro em ata de câmara. Junto com a ferrovia, foi embora boa parte da memória material da comunidade: documentos, fotografias e objetos perdidos, furtados ou destruídos pela água. Estima-se que mais de 70% desse acervo tenha se perdido.
“Depois da criação da associação, aquela casa avivou um pouco mais — tava bem no ostracismo. Esse trabalho que vocês estão fazendo é incrível. Vai ajudar a não deixar morrer, a avivar a memória disso tudo.” — Moradora da Margem da Linha
Cada relato registrado é um esforço de reconstrução — de uma identidade negra, ferroviária e resistente que a história oficial da cidade insistiu em não contar.