Museu Virtual do Vale do Mucuri
Museu Bahia-Minas
UM PEQUENO ACERVO, UMA GRANDE MEMÓRIA
Na sede da Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas, na Rua Júlio Costa — a poucos passos do Pontilhão histórico e da antiga estação —, funciona um pequeno museu que guarda o que restou da vida cotidiana da Estrada de Ferro Bahia e Minas. O imóvel foi cedido pela Prefeitura Municipal à associação e passou por reformas no início dos anos 2000. Ali, objetos doados por familiares de ex-ferroviários e pela extinta RFFSA compõem um acervo modesto, mas de valor histórico considerável para a cidade.
O QUE O ACERVO GUARDA
Entre os itens preservados estão documentos do antigo departamento de pessoal da ferrovia, carteiras de trabalho, uma flâmula do time de futebol dos ferroviários, apito de estação, lanterna de sinalização, bagageiro, sino de estação, carimbador de bilhetes, relógio carrilhão, fotografias e quadros do cotidiano ferroviário.
Alguns objetos remetem diretamente ao trabalho de manutenção da via — como os grampos que prendiam os trilhos aos dormentes, usados diariamente pelas Turmas de Conserva na inspeção a pé de cada trecho da linha, e reconhecidos por moradores que ainda hoje lembram desse trabalho de perto:
“Tinha aqueles grampos, né, que prende o trilho ali no dormente — ele [o inspetor] ia conferir aquilo tudo, se tava precisando de reparo, anotava tudo, pra turma fazer o acompanhamento.” — Morador da Margem da Linha
Cada um desses objetos — do apito que anunciava a chegada dos trens ao carimbador que registrava as passagens — é um fragmento físico de uma vida coletiva que, hoje, sobrevive majoritariamente na memória oral dos moradores mais antigos da comunidade.
UM ACERVO AINDA INSUFICIENTE
Apesar do valor simbólico do espaço, o próprio tamanho do acervo é motivo de preocupação entre quem conhece de perto a história da ferrovia. Para alguns moradores, o museu, tal como está hoje, ainda está longe de representar a real dimensão dessa memória:
“Esse museu, eu olhei, tá com muito pouca coisa pra memória dessa Bahia-Minas. A gente precisava de verba, de contato com os políticos, pra liberar recurso. E também convidar os filhos dos ex-ferroviários — porque ferroviário mesmo, hoje, tem pouquíssimos vivos aqui em Teófilo Otoni.” — Morador da Margem da Linha
Esse alerta aponta para uma urgência dupla: de um lado, a fragilidade física do espaço — infiltrações e falta de recursos ameaçam o que resta do acervo; de outro, a urgência humana, já que a geração que viveu diretamente o período da ferrovia está cada vez mais reduzida, tornando cada relato coletado um registro que não poderá mais ser refeito.
POR QUE VISITAR
Visitar o Museu da Associação Cultural Ferroviários Bahia-Minas é reconhecer que a história de Teófilo Otoni — sua formação urbana, econômica e cultural — não pode ser contada sem a Estrada de Ferro Bahia e Minas, nem sem os trabalhadores negros que a sustentaram e que, ainda hoje, lutam para que essa memória não desapareça.
Cada objeto exposto ali é também um convite: à comunidade, para reencontrar suas próprias raízes; e à cidade, para reconhecer uma história que, por muito tempo, foi mantida às margens — e que agora depende de apoio concreto para não se perder de vez.